Ressecção Discoide: técnica, indicações e variações cirúrgicas
A ressecção discoide é uma técnica cirúrgica que consiste na remoção em espessura total de uma área localizada da parede anterior do reto, com posterior fechamento do defeito criado por meio de sutura. Ela é especialmente indicada para lesões únicas, profundas e menores que 4 cm, sendo considerada, por muitos especialistas, a primeira opção nesses casos.
Essa abordagem foi descrita há mais de 25 anos no tratamento da endometriose profunda, e pode ser realizada com ou sem o uso de grampeadores mecânicos. Quando os grampeadores não são utilizados, a lesão é retirada cirurgicamente, e o defeito da parede retal é fechado com pontos simples ou em duas camadas.
Uso de grampeador circular na ressecção discoide
Uma das variações da técnica foi descrita por Gordon, em 2001, utilizando um grampeador circular para reparar o defeito gerado pela excisão. Com a paciente sob anestesia, em posição de Lloyd-Davies e com sonda vesical, realiza-se a ressecção do nódulo, criando um defeito na parede anterior do reto.
Dois pontos são colocados nas extremidades da área ressecada para melhor manipulação. Em seguida, o grampeador circular é introduzido via anal, posicionando-se o segmento do reto com o defeito entre a bigorna e o cartucho do aparelho. Após o disparo, o defeito é fechado e o tecido ao redor do nódulo é removido em conjunto.
Ressecção e reparo simultâneos
Outra variação utiliza o grampeador circular para ressecar e reparar simultaneamente. Neste caso, após a dissecção do nódulo, é aplicado um ponto transfixante no centro da lesão. Quando o nódulo é maior, recomenda-se ressecção parcial ou total, com reforço das extremidades por meio de outro ponto transfixante.
O aparelho é introduzido via retal e o nódulo é posicionado entre a bigorna e o cartucho, com o auxílio do ponto guia. O cirurgião deve puxar o dispositivo anteriormente antes de disparar, garantindo que o nódulo seja completamente ressecado e que o defeito seja reparado pela linha de grampeamento.
Avaliação endoscópica intraoperatória
Após o disparo, costuma-se realizar uma avaliação endoscópica intraoperatória para verificar a integridade da anastomose e tratar possíveis sangramentos residuais.
Resultados clínicos e taxas de recidiva
Uma análise prospectiva de pacientes submetidas à ressecção discoide em dois centros especializados demonstrou bons resultados no pós-operatório imediato e baixas taxas de complicação. A média de tamanho das lesões era de 30 mm (variando de 7 a 70 mm).
Apesar de até 40% dos casos apresentarem margens comprometidas após a ressecção, há poucos estudos prospectivos comparando esta técnica com a ressecção segmentar quanto aos desfechos tardios, qualidade de vida e recorrência da doença. Dados de séries retrospectivas relatam taxas de recidiva entre 1,8% e 10,4% em pacientes tratadas com ressecção discoide.
Técnica de duplo disparo transanal
Para lesões mais extensas, existe a técnica de duplo disparo transanal com grampeador circular, em que o primeiro disparo é feito com um grampeador de 33 mm e, em seguida, um segundo com grampeador de 29 mm, buscando eliminar tecido residual.
Um estudo com 120 pacientes com endometriose retal utilizou essa técnica em 11 casos, com baixas taxas de complicação. No entanto, os autores alertam que, por remover uma área maior da parede anterior do reto, esse método pode levar a distorções do eixo retal e gerar sintomas como tenesmo e sensação de evacuação incompleta, sendo necessário aguardar mais estudos para validar seu uso rotineiro.
Técnica de Rouen e uso do PlasmaJet®
Por fim, Roman et al. descreveram uma variação chamada de Técnica de Rouen, indicada para nódulos maiores que 3 cm que estejam muito próximos da borda anal (4-5cm ou menos). Essa abordagem começa com a ressecção superficial do nódulo via laparoscopia, seguida da ablação com PlasmaJet®, tecnologia baseada em plasma de argônio que oferece menor dispersão térmica lateral e maior segurança ao contato com a parede retal.
Em seguida, são aplicados pontos anais para tração do segmento-alvo, e realiza-se a ressecção retal transanal com grampeador Contour Transtar®.
Experiência internacional com Dr. Horace Roman
No ano de 2025 tive o grande prazer de estar com uma das maiores referências em Endometriose Infiltrativa no mundo (Dr. Horace Roman - IFEMENDO Bordeaux) e pude realizar com ele diversas cirurgias com ressecção colorretal. Foi um momento de muita evolução e entendimento de uma das formas mais graves da Endometriose, sendo hoje possível oferecer o mesmo cuidado e tratamento para nossas pacientes no Brasil.



