Existem biomarcadores confiaveis para o diagnóstico de Endometriose?

O atraso significativo no diagnóstico da endometriose é amplamente reconhecido e impõe um grande impacto na vida de milhões de mulheres em todo o mundo. Atualmente, a doença pélvica/abdominal é clinicamente classificada em três tipos principais: lesões superficiais (peritoneais/serosas), cistos de endometriose ovariana (endometriomas) e endometriose profunda (definida como infiltração superior a 5 mm abaixo da superfície peritoneal ou serosa) (Cornillie et al., 1990).

Com a evolução das tecnologias médicas e a realização de estudos de larga escala, espera-se que no futuro novos sistemas de classificação mais precisos sejam desenvolvidos, visando aprimorar tanto a acurácia diagnóstica quanto a eficácia terapêutica.

Utilização de Tecnologias Médicas no Diagnóstico da Endometriose

As tecnologias médicas são fundamentais para diagnosticar ou excluir diversas doenças, e sua aplicação em pacientes com endometriose também tem sido explorada. Entre as principais abordagens estão métodos de imagem, biomarcadores e procedimentos cirúrgicos, utilizados isoladamente ou em combinação.

A eficácia dessas técnicas pode depender da experiência clínica no uso de ferramentas como ultrassonografia e cirurgia, além da disponibilidade de equipamentos como a ressonância magnética (MRI). Portanto, é importante considerar as diferenças locais ao aplicar dados de estudos realizados por especialistas em centros de excelência.

Além disso, biomarcadores exigem protocolos rigorosos para coleta e armazenamento de amostras biológicas, e dados clínicos e cirúrgicos de alta qualidade para garantir resultados confiáveis (Becker et al., 2014; Casper, 2014; Fassbender et al., 2014; Rahmioglu et al., 2014; Vitonis et al., 2014).

O Dogma da Laparoscopia como Padrão-Ouro

Tradicionalmente, a laparoscopia tem sido considerada o padrão-ouro para o diagnóstico da endometriose. Contudo, mesmo sendo amplamente realizada, é um procedimento invasivo, associado a potenciais riscos de morbidade e mortalidade (Byrne et al., 2018a; Chapron et al., 1998).

Assim, é urgente o desenvolvimento de métodos não invasivos, confiáveis, acessíveis e com alta sensibilidade e especificidade para substituir procedimentos invasivos. Para isso, são necessários grandes estudos internacionais multicêntricos, utilizando tecnologias inovadoras, fenotipagem padronizada e financiamento adequado.

Biomarcadores no Diagnóstico da Endometriose

Panorama Atual

Vários estudos investigaram biomarcadores sanguíneos, urinários e endometriais para diagnosticar endometriose, especialmente em pacientes sintomáticas. No entanto, a maioria dos resultados negativos não é publicada, indicando um viés de publicação significativo nesta área (May et al., 2010; May et al., 2011).

Resultados de Revisões Recentes

Uma revisão atualizada utilizando as ferramentas da Cochrane Collaboration confirmou que, até o momento, não existem biomarcadores suficientemente confiáveis para o uso clínico rotineiro (Gupta et al., 2016; Liu et al., 2015; Nisenblat et al., 2016a).

Infelizmente, os estudos disponíveis foram considerados de baixa qualidade metodológica, limitando sua aplicabilidade na prática clínica.

Biomarcadores no Sangue

Apesar de alguns biomarcadores sanguíneos demonstrarem potencial para diferenciar endometriose de outros tumores ovarianos, as evidências atuais são insuficientes para conclusões clínicas sólidas (Nisenblat et al., 2016a).

Biomarcadores na Urina

Da mesma forma, biomarcadores urinários também não apresentaram qualidade suficiente para recomendação em protocolos clínicos de rotina (Liu et al., 2015).

Biomarcadores Endometriais

Uma meta-análise envolvendo sete estudos sugeriu que a avaliação histológica do produto genético da proteína neuronal PGP 9.5 poderia, potencialmente, substituir a laparoscopia (sensibilidade 96%; especificidade 86%) (Gupta et al., 2016). Contudo, a heterogeneidade dos estudos limita a robustez desses achados.

Marcadores Neuronais Alternativos

Outros marcadores, como VIP, SP, NPY e CGRP, mostraram potencial teórico, mas as evidências continuam sendo de qualidade insuficiente para recomendação clínica.

CA-125 no Diagnóstico da Endometriose

Uma revisão sistemática avaliou a precisão do antígeno CA-125 como marcador diagnóstico para endometriose, envolvendo mais de 3600 participantes (Hirsch et al., 2016). A especificidade agrupada foi alta (93%), mas a sensibilidade permaneceu modesta (52%).

Embora o CA-125 tenha desempenho melhor na endometriose em estágios III/IV, ele é considerado inadequado para detecção de todos os casos, limitando seu valor como ferramenta de triagem isolada (Mol et al., 1998; Hirsch et al., 2016).

MicroRNAs como Biomarcadores Potenciais - um futuro não tão distante

Recentemente, microRNAs (miRNAs) foram investigados como possíveis biomarcadores não invasivos para a endometriose. Estudos iniciais mostraram que um painel de miRNAs (miR-125b-5p, miR-150-5p, miR-342-5p, miR-451a) poderia diferenciar mulheres com endometriose de controles (Cosar et al., 2016; Moustafa et al., 2020).

Apesar dos resultados promissores, a confirmação em estudos maiores e independentes é necessária antes que essa abordagem possa ser incorporada ao uso clínico.

Recomendações Atuais

De acordo com as evidências disponíveis:

Os médicos não devem utilizar biomarcadores em tecidos endometriais, sangue, fluidos menstruais ou uterinos para diagnosticar endometriose.

No momento, não existe biomarcador confiável que permita confirmar ou excluir a endometriose com segurança.

Embora o CA-125 seja barato e acessível, seu uso como ferramenta isolada não é recomendado, pois um resultado negativo pode gerar falso sentimento de segurança e um resultado positivo pode levar a ansiedade e tratamentos desnecessários.