Excisão ou Ablação para endometriose: comparando técnicas
A endometriose é uma condição ginecológica desafiadora. Entre as abordagens cirúrgicas mais discutidas estão a excisão e a ablação das lesões. Este artigo analisa comparativamente as duas técnicas com base nas evidências científicas atuais.
Vantagens da Excisão
Desvantagens da Excisão
Vantagens da Ablação
Desvantagens da Ablação
Veja a técnica de ressecção da endometriose na prática:
Koninckx et al. (1991) consideraram o limite da coagulação para acometimento em até 2 mm de profundidade e concluíram que a coagulação pode ser eficaz no tratamento de 96% ou mais das lesões aparentemente superficiais, considerando que o tratamento completo nem sempre é necessário. No entanto, devido à profundidade imprevisível da ablação, ela não deve ser utilizada sobre estruturas vitais, como as lesões intermediárias de 3 mm de profundidade sobre o ureter por exemplo. A ablação é equivalente à exérese para casos de doença superficial e mínima a leve, mas são necessários ensaios clínicos randomizados com acompanhamentos mais longos. A mais recente revisão Cochrane (Bafort, 2020), bem como os estudos de Burks et al. (2020) e Falcone & Wilson (2019), apoiam essa visão. Contudo, a mesma revisão Cochrane concluiu que não há evidência suficiente de que o tratamento cirúrgico da endometriose peritoneal superficial seja efetivo. Um dado interessante é que Burks et al. (2020) destacaram que, em Radosa et al. (2010), a exérese apresentou taxa de recorrência de 18,6%, comparada a apenas 2,8% com ablação por eletrocoagulação. As Diretrizes da ESHRE 2022 (Becker et al.) sugerem que "os médicos podem considerar a exérese em vez da ablação para reduzir a dor associada à endometriose". No entanto, essa é uma recomendação fraca, baseada em estudos como o de Pundir et al. (2017), que apresentava erros estatísticos (Chen 2017; Gu 2018), e que não incluiu os dados de Barton-Smith (2010) sobre endometriose superficial nas tabelas 35 ou 36 — tabelas que mostravam nenhuma diferença entre exérese e vaporização para endometriose superficial, o que precisaria de avaliar outras variáveis para comprovar os motivos dessa diferença. Tanto Pundir quanto Barton-Smith utilizam a expressão "doença superficial e profunda" para se referir à combinação de ambas em um único grupo, e não a uma análise separada. Outros estudos analisados pela ESHRE também não encontraram diferença entre exérese e ablação. Healey et al. (2010, 2014) mostraram melhora aos cinco anos após exérese em comparação com um ano, mas isso se aplicava apenas aos estágios I e II (revisados pelo sistema AFS – rASRM) e incluía doença profunda em 53% do grupo de exérese e 22% no grupo de ablação. Estágios III e IV foram excluídos, pois os autores consideravam que a eletrocoagulação não era adequada para doença nodular ou infiltrativa profunda. Não houve diferença significativa aos 12 meses (Healey, 2010). Dos 13 critérios avaliados pela escala VAS, apenas a dispareunia foi significativamente reduzida no grupo de exérese aos cinco anos (Healey, 2014). O protocolo de Healey excluiu os estágios III e IV pela mesma razão, mas devido à limitação do sistema rASRM em correlacionar profundidade, ainda assim incluíram doença profunda em 53% das pacientes do grupo de exérese e 22% do grupo de ablação. Descobriu-se que 37,3% dos estágios I e II já tinham endometriose profunda. Koninckx et al. apresentaram dados semelhantes, com mais doença profunda no estágio II (34%) do que nos estágios IV (22%), III (15%) e I (3%). Ou seja, endometriose profunda foi mais comum em estágios clínicos leves do que em estágios severos. A ablação, por ser uma técnica geralmente superficial (menos de 2 mm), pode se tornar imprevisível e perigosa se o cirurgião tentar ultrapassar a superfície. Por isso, ela costuma ser evitada próximo a estruturas nobres, devido ao risco envolvido, caso não haja uma boa técnica e experiência do cirurgião. A excisão, por outro lado, é utilizada em todos os locais da anatomia pélvica, pois a dissecção e visualização das estruturas precede sua realização (reduzindo riscos de lesões inadvertidas), incluindo ressecção intestinal para endometriose. Jaiswal e Huang (2017) revisaram a história, o uso e as complicações dos dispositivos de energia utilizados na laparoscopia. Dos três casos descritos por Khare et al. (1993), dois ocorreram durante o uso normal da excisão, enquanto um foi resultado do uso inadvertido da ablação. Neste caso, "a endometriose profunda não foi prevista, mas foi encontrada adjacente ao lado direito do reto. A eletrocirurgia bipolar foi utilizada para dissecar completamente a lesão." Minha conduta usual diante de endometriose próxima a estruturas vitais, como o reto, é evitar o uso de energias próximo à parede intestinal, avaliar a lesão por meio de exames (potencialmente combinando ultrassonografia transvaginal, ressonância magnética, colonoscopia) e estar trabalhando com equipe multidisciplinar incluindo cirurgiões colorretais. Na Europa, o Dr. Horace Roman, França, é um exemplo de médico com forte atuação e com quem tive a oportunidade de aprender durante meu fellowship em Bordeaux. Seu vídeo com transcrição está disponível em:
Primum Non Nocere vs. Cirurgia Intestinal Definitiva para Endometriose
.
A classificação da endometriose deve ser criteriosa considerando a profundidade das lesões, sintomas da paciente, desejo reprodutivo e localização anatômica das alterações; e após isso, definir qual técnica utilizar no tratamento cirurgico. A ablação pode ser apropriada e segura para lesões superficiais, especialmente quando realizada por profissionais experientes e em contextos adequados. As evidências disponíveis ainda são limitadas e muitas vezes inconclusivas, com revisões sistemáticas baseadas em um número reduzido de estudos primários. Portanto, a experiência clínica do cirurgião, associada a uma equipe multidisciplinar especializada, continua sendo um dos pilares na tomada de decisão. Para casos complexos ou em áreas críticas como intestino e ureteres, a prudência e a avaliação conjunta com exames de imagem especializados são essenciais para garantir segurança e eficácia terapêutica.
Perguntas frequentes
Respostas objetivas para algumas das dúvidas mais comuns sobre
técnicas cirúrgicas, indicação, segurança e recuperação no
tratamento da endometriose.
Na excisão, a lesão é removida cirurgicamente, permitindo a
retirada do tecido e sua análise histológica. Na ablação, a
lesão é destruída por uma fonte de energia aplicada à sua
superfície. A escolha entre as técnicas depende, entre outros
fatores, da profundidade, localização e características das
lesões.
Não necessariamente. A decisão deve considerar o tipo e a
profundidade das lesões, sua localização anatômica, os sintomas,
o planejamento reprodutivo e a experiência da equipe cirúrgica.
As evidências disponíveis não permitem tratar todas as formas de
endometriose como uma única situação clínica.
A excisão pode ser considerada especialmente quando é necessário
remover e delimitar uma lesão, inclusive em situações de doença
profunda. A indicação deve ser individualizada após avaliação
clínica, exames de imagem e análise da anatomia envolvida.
A ablação pode ser considerada em determinadas lesões
superficiais e em contextos selecionados. Como a profundidade
real da lesão nem sempre é previsível apenas pela aparência da
superfície, sua utilização deve considerar cuidadosamente a
localização e a proximidade de estruturas importantes.
Não. São procedimentos diferentes. Neste artigo, ablação se
refere ao tratamento de lesões de endometriose. A ablação
endometrial é um procedimento realizado sobre o endométrio,
tecido que reveste internamente o útero, e possui outras
indicações.
Não existe um único procedimento ideal para todas as pacientes.
O tratamento depende dos sintomas, localização e profundidade
das lesões, desejo reprodutivo, tratamentos anteriores e outros
aspectos individuais. Nem toda paciente com endometriose
necessita de cirurgia.
A indicação cirúrgica é individualizada. A videolaparoscopia
pode fazer parte do tratamento em situações selecionadas,
especialmente após avaliação dos sintomas, resposta ao
tratamento clínico, exames de imagem, localização das lesões
e objetivos da paciente.
Lesões profundas exigem avaliação cuidadosa da anatomia e das
estruturas envolvidas. Quando há comprometimento próximo ao
intestino, ureteres, bexiga ou outras estruturas importantes,
o planejamento cirúrgico deve considerar a profundidade da
doença e os riscos específicos de cada abordagem.
Como em qualquer procedimento cirúrgico, existem riscos.
Eles variam conforme a extensão da doença, localização das
lesões, órgãos envolvidos, técnica empregada e características
clínicas da paciente. Casos complexos podem exigir planejamento
multidisciplinar.
O tempo de recuperação varia conforme a extensão da cirurgia,
os órgãos tratados e as características individuais da paciente.
O retorno às atividades costuma ser progressivo e deve seguir
as orientações da equipe responsável pelo procedimento.
Sim. A endometriose profunda pode comprometer estruturas como
intestino, ureteres e bexiga. Quando existe suspeita desse
envolvimento, exames de imagem especializados e planejamento
cirúrgico adequado ajudam a definir a estratégia e a eventual
necessidade de uma equipe multidisciplinar.
Pode haver persistência ou recorrência de sintomas e lesões
após o tratamento cirúrgico. O risco não depende apenas da
técnica utilizada e deve ser interpretado considerando o tipo
de doença, o tratamento realizado e o acompanhamento posterior.
EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
A escolha da técnica cirúrgica deve considerar o tipo de endometriose,
a profundidade e localização das lesões, os sintomas, os órgãos
envolvidos e os objetivos da paciente. Diretrizes internacionais
permitem considerar a excisão em preferência à ablação em determinados
contextos, mas a literatura não demonstra superioridade universal de
uma técnica para todas as formas da doença.
DIRETRIZ INTERNACIONAL
Diretriz da European Society of Human Reproduction and Embryology.
Quando a cirurgia é realizada, a ESHRE estabelece que a excisão
pode ser considerada em vez da ablação para redução da dor
associada à endometriose. A própria diretriz ressalta as limitações
das evidências disponíveis e discute diferenças entre doença
superficial e profunda.
REVISÃO SISTEMÁTICA E META-ANÁLISE
Revisão sistemática e meta-análise de Burks e colaboradores,
publicada no Journal of Minimally Invasive Gynecology em 2021.
Na endometriose mínima a leve, a análise não demonstrou diferença
significativa entre excisão e ablação na melhora da dismenorreia,
dispareunia e disquezia. O estudo reforça que os resultados não
devem ser generalizados para todas as formas de endometriose.
RECOMENDAÇÕES CIRÚRGICAS INTERNACIONAIS
Recomendações elaboradas conjuntamente pela European Society for
Gynaecological Endoscopy, European Society of Human Reproduction
and Embryology e World Endometriosis Society sobre os aspectos
técnicos da cirurgia da endometriose profunda. O documento aborda
planejamento pré-operatório, anatomia cirúrgica e diferentes
estratégias conforme a localização e extensão da doença, incluindo
intestino, trato urinário e outras estruturas pélvicas.
DIRETRIZ CLÍNICA INTERNACIONAL
Diretriz do National Institute for Health and Care Excellence
sobre diagnóstico e tratamento da endometriose. Recomenda que
a cirurgia seja realizada por via laparoscópica quando indicada
e orienta considerar excisão em vez de ablação no tratamento
de endometriomas, levando em conta fertilidade e reserva ovariana.
REFERÊNCIA INTERNACIONAL EM ENDOMETRIOSE
A World Endometriosis Society reúne as recomendações cirúrgicas
desenvolvidas em colaboração com ESGE e ESHRE. Os documentos
abordam tanto o tratamento dos endometriomas — incluindo
cistectomia e técnicas ablativas — quanto os aspectos técnicos
da cirurgia da endometriose profunda.
Considerações sobre Ablação, Exérese e Profundidade das Lesões
Estudos de Seguimento Longo
Visualizando os resultados positivos da exérese sobre a ablação
Complicações Relacionadas à Profundidade e Localização
As complicações, tanto na excisão quanto na ablação, geralmente decorrem da profundidade ou localização da área tratada.
Conclusão
A escolha entre excisão e ablação no tratamento da endometriose deve ser individualizada
A excisão se mostra mais precisa e eficaz para lesões profundas
Veja como a videolaparoscopia para tratamento de endometriose é realizada na prática:
Cirurgia minimamente invasiva para maior segurança e melhor recuperação
Dúvidas frequentes sobre excisão, ablação e cirurgia para endometriose
Qual é a diferença entre excisão e ablação da endometriose?
Excisão é sempre melhor que ablação para endometriose?
Quando a excisão pode ser considerada na endometriose?
Quando a ablação pode ser utilizada na endometriose?
A ablação de endometriose é a mesma coisa que ablação endometrial?
Qual é o melhor procedimento para endometriose?
Quando a videolaparoscopia pode ser indicada para endometriose?
Endometriose profunda pode ser tratada por ablação?
Quais são os riscos da cirurgia para endometriose?
Quanto tempo leva a recuperação após cirurgia de endometriose?
A cirurgia para endometriose pode envolver intestino ou ureter?
É possível a endometriose voltar depois da cirurgia?
Evidências sobre excisão, ablação e cirurgia da endometriose
ESHRE Guideline: Endometriosis
Excision versus Ablation for Minimal to Mild Endometriosis
ESGE · ESHRE · WES — Cirurgia da Endometriose Profunda
NICE — Endometriosis: Diagnosis and Management
World Endometriosis Society — Surgical Recommendations
Compartilhe esse artigo
Artigo revisado por Dr. Gustavo Pizani , ginecologista com atuação em cirurgia ginecológica minimamente invasiva, cirurgia robótica, videolaparoscopia avançada e tratamento cirúrgico da endometriose.



