Excisão ou Ablação para endometriose: comparando técnicas

A endometriose é uma condição ginecológica desafiadora. Entre as abordagens cirúrgicas mais discutidas estão a excisão e a ablação das lesões. Este artigo analisa comparativamente as duas técnicas com base nas evidências científicas atuais.

Vantagens da Excisão

  • Remoção precisa e completa.
  • Visualização clara das margens e estruturas profundas.
  • Permite análise histológica de qualidade.
  • Desvantagens da Excisão

  • Curva de aprendizado longa.
  • Maior tempo cirúrgico.
  • Menor cobertura por planos de saúde.
  • Vantagens da Ablação

  • Procedimento mais rápido e amplamente disponível.
  • Eficaz em lesões superficiais.
  • Menor risco imediato quando bem indicada.
  • Desvantagens da Ablação

  • Imprevisível em profundidade.
  • Desaconselhada próxima a órgãos vitais.
  • Veja a técnica de ressecção da endometriose na prática:

    Vídeo demonstrativo da videolaparoscopia para tratamento de endometriose realizada pelo Dr. Gustavo Pizani e equipe especializada.

    Considerações sobre Ablação, Exérese e Profundidade das Lesões

    Koninckx et al. (1991) consideraram o limite da coagulação para acometimento em até 2 mm de profundidade e concluíram que a coagulação pode ser eficaz no tratamento de 96% ou mais das lesões aparentemente superficiais, considerando que o tratamento completo nem sempre é necessário.

    No entanto, devido à profundidade imprevisível da ablação, ela não deve ser utilizada sobre estruturas vitais, como as lesões intermediárias de 3 mm de profundidade sobre o ureter por exemplo.

    A ablação é equivalente à exérese para casos de doença superficial e mínima a leve, mas são necessários ensaios clínicos randomizados com acompanhamentos mais longos. A mais recente revisão Cochrane (Bafort, 2020), bem como os estudos de Burks et al. (2020) e Falcone & Wilson (2019), apoiam essa visão.

    Contudo, a mesma revisão Cochrane concluiu que não há evidência suficiente de que o tratamento cirúrgico da endometriose peritoneal superficial seja efetivo. Um dado interessante é que Burks et al. (2020) destacaram que, em Radosa et al. (2010), a exérese apresentou taxa de recorrência de 18,6%, comparada a apenas 2,8% com ablação por eletrocoagulação.

    As Diretrizes da ESHRE 2022 (Becker et al.) sugerem que "os médicos podem considerar a exérese em vez da ablação para reduzir a dor associada à endometriose". No entanto, essa é uma recomendação fraca, baseada em estudos como o de Pundir et al. (2017), que apresentava erros estatísticos (Chen 2017; Gu 2018), e que não incluiu os dados de Barton-Smith (2010) sobre endometriose superficial nas tabelas 35 ou 36 — tabelas que mostravam nenhuma diferença entre exérese e vaporização para endometriose superficial, o que precisaria de avaliar outras variáveis para comprovar os motivos dessa diferença.

    Tanto Pundir quanto Barton-Smith utilizam a expressão "doença superficial e profunda" para se referir à combinação de ambas em um único grupo, e não a uma análise separada. Outros estudos analisados pela ESHRE também não encontraram diferença entre exérese e ablação.

    Estudos de Seguimento Longo

    Visualizando os resultados positivos da exérese sobre a ablação

    Healey et al. (2010, 2014) mostraram melhora aos cinco anos após exérese em comparação com um ano, mas isso se aplicava apenas aos estágios I e II (revisados pelo sistema AFS – rASRM) e incluía doença profunda em 53% do grupo de exérese e 22% no grupo de ablação. Estágios III e IV foram excluídos, pois os autores consideravam que a eletrocoagulação não era adequada para doença nodular ou infiltrativa profunda.

    Não houve diferença significativa aos 12 meses (Healey, 2010). Dos 13 critérios avaliados pela escala VAS, apenas a dispareunia foi significativamente reduzida no grupo de exérese aos cinco anos (Healey, 2014).

    O protocolo de Healey excluiu os estágios III e IV pela mesma razão, mas devido à limitação do sistema rASRM em correlacionar profundidade, ainda assim incluíram doença profunda em 53% das pacientes do grupo de exérese e 22% do grupo de ablação. Descobriu-se que 37,3% dos estágios I e II já tinham endometriose profunda.

    Koninckx et al. apresentaram dados semelhantes, com mais doença profunda no estágio II (34%) do que nos estágios IV (22%), III (15%) e I (3%). Ou seja, endometriose profunda foi mais comum em estágios clínicos leves do que em estágios severos.

    Complicações Relacionadas à Profundidade e Localização

    As complicações, tanto na excisão quanto na ablação, geralmente decorrem da profundidade ou localização da área tratada.

    A ablação, por ser uma técnica geralmente superficial (menos de 2 mm), pode se tornar imprevisível e perigosa se o cirurgião tentar ultrapassar a superfície. Por isso, ela costuma ser evitada próximo a estruturas nobres, devido ao risco envolvido, caso não haja uma boa técnica e experiência do cirurgião.

    A excisão, por outro lado, é utilizada em todos os locais da anatomia pélvica, pois a dissecção e visualização das estruturas precede sua realização (reduzindo riscos de lesões inadvertidas), incluindo ressecção intestinal para endometriose. Jaiswal e Huang (2017) revisaram a história, o uso e as complicações dos dispositivos de energia utilizados na laparoscopia.

    Dos três casos descritos por Khare et al. (1993), dois ocorreram durante o uso normal da excisão, enquanto um foi resultado do uso inadvertido da ablação. Neste caso, "a endometriose profunda não foi prevista, mas foi encontrada adjacente ao lado direito do reto. A eletrocirurgia bipolar foi utilizada para dissecar completamente a lesão."

    Minha conduta usual diante de endometriose próxima a estruturas vitais, como o reto, é evitar o uso de energias próximo à parede intestinal, avaliar a lesão por meio de exames (potencialmente combinando ultrassonografia transvaginal, ressonância magnética, colonoscopia) e estar trabalhando com equipe multidisciplinar incluindo cirurgiões colorretais.

    Na Europa, o Dr. Horace Roman, França, é um exemplo de médico com forte atuação e com quem tive a oportunidade de aprender durante meu fellowship em Bordeaux. Seu vídeo com transcrição está disponível em: Primum Non Nocere vs. Cirurgia Intestinal Definitiva para Endometriose .

    Conclusão

    A escolha entre excisão e ablação no tratamento da endometriose deve ser individualizada

    A classificação da endometriose deve ser criteriosa considerando a profundidade das lesões, sintomas da paciente, desejo reprodutivo e localização anatômica das alterações; e após isso, definir qual técnica utilizar no tratamento cirurgico.

    A excisão se mostra mais precisa e eficaz para lesões profundas

    A ablação pode ser apropriada e segura para lesões superficiais, especialmente quando realizada por profissionais experientes e em contextos adequados.

    As evidências disponíveis ainda são limitadas e muitas vezes inconclusivas, com revisões sistemáticas baseadas em um número reduzido de estudos primários. Portanto, a experiência clínica do cirurgião, associada a uma equipe multidisciplinar especializada, continua sendo um dos pilares na tomada de decisão.

    Para casos complexos ou em áreas críticas como intestino e ureteres, a prudência e a avaliação conjunta com exames de imagem especializados são essenciais para garantir segurança e eficácia terapêutica.

    Veja como a videolaparoscopia para tratamento de endometriose é realizada na prática:

    Cirurgia minimamente invasiva para maior segurança e melhor recuperação

    Vídeo demonstrativo da videolaparoscopia para tratamento de endometriose realizada pelo Dr. Gustavo Pizani e equipe especializada.

    Perguntas frequentes

    Dúvidas frequentes sobre excisão, ablação e cirurgia para endometriose

    Respostas objetivas para algumas das dúvidas mais comuns sobre técnicas cirúrgicas, indicação, segurança e recuperação no tratamento da endometriose.

    Qual é a diferença entre excisão e ablação da endometriose?

    Na excisão, a lesão é removida cirurgicamente, permitindo a retirada do tecido e sua análise histológica. Na ablação, a lesão é destruída por uma fonte de energia aplicada à sua superfície. A escolha entre as técnicas depende, entre outros fatores, da profundidade, localização e características das lesões.

    Excisão é sempre melhor que ablação para endometriose?

    Não necessariamente. A decisão deve considerar o tipo e a profundidade das lesões, sua localização anatômica, os sintomas, o planejamento reprodutivo e a experiência da equipe cirúrgica. As evidências disponíveis não permitem tratar todas as formas de endometriose como uma única situação clínica.

    Quando a excisão pode ser considerada na endometriose?

    A excisão pode ser considerada especialmente quando é necessário remover e delimitar uma lesão, inclusive em situações de doença profunda. A indicação deve ser individualizada após avaliação clínica, exames de imagem e análise da anatomia envolvida.

    Quando a ablação pode ser utilizada na endometriose?

    A ablação pode ser considerada em determinadas lesões superficiais e em contextos selecionados. Como a profundidade real da lesão nem sempre é previsível apenas pela aparência da superfície, sua utilização deve considerar cuidadosamente a localização e a proximidade de estruturas importantes.

    A ablação de endometriose é a mesma coisa que ablação endometrial?

    Não. São procedimentos diferentes. Neste artigo, ablação se refere ao tratamento de lesões de endometriose. A ablação endometrial é um procedimento realizado sobre o endométrio, tecido que reveste internamente o útero, e possui outras indicações.

    Qual é o melhor procedimento para endometriose?

    Não existe um único procedimento ideal para todas as pacientes. O tratamento depende dos sintomas, localização e profundidade das lesões, desejo reprodutivo, tratamentos anteriores e outros aspectos individuais. Nem toda paciente com endometriose necessita de cirurgia.

    Quando a videolaparoscopia pode ser indicada para endometriose?

    A indicação cirúrgica é individualizada. A videolaparoscopia pode fazer parte do tratamento em situações selecionadas, especialmente após avaliação dos sintomas, resposta ao tratamento clínico, exames de imagem, localização das lesões e objetivos da paciente.

    Endometriose profunda pode ser tratada por ablação?

    Lesões profundas exigem avaliação cuidadosa da anatomia e das estruturas envolvidas. Quando há comprometimento próximo ao intestino, ureteres, bexiga ou outras estruturas importantes, o planejamento cirúrgico deve considerar a profundidade da doença e os riscos específicos de cada abordagem.

    Quais são os riscos da cirurgia para endometriose?

    Como em qualquer procedimento cirúrgico, existem riscos. Eles variam conforme a extensão da doença, localização das lesões, órgãos envolvidos, técnica empregada e características clínicas da paciente. Casos complexos podem exigir planejamento multidisciplinar.

    Quanto tempo leva a recuperação após cirurgia de endometriose?

    O tempo de recuperação varia conforme a extensão da cirurgia, os órgãos tratados e as características individuais da paciente. O retorno às atividades costuma ser progressivo e deve seguir as orientações da equipe responsável pelo procedimento.

    A cirurgia para endometriose pode envolver intestino ou ureter?

    Sim. A endometriose profunda pode comprometer estruturas como intestino, ureteres e bexiga. Quando existe suspeita desse envolvimento, exames de imagem especializados e planejamento cirúrgico adequado ajudam a definir a estratégia e a eventual necessidade de uma equipe multidisciplinar.

    É possível a endometriose voltar depois da cirurgia?

    Pode haver persistência ou recorrência de sintomas e lesões após o tratamento cirúrgico. O risco não depende apenas da técnica utilizada e deve ser interpretado considerando o tipo de doença, o tratamento realizado e o acompanhamento posterior.

    EVIDÊNCIA CIENTÍFICA

    Evidências sobre excisão, ablação e cirurgia da endometriose

    A escolha da técnica cirúrgica deve considerar o tipo de endometriose, a profundidade e localização das lesões, os sintomas, os órgãos envolvidos e os objetivos da paciente. Diretrizes internacionais permitem considerar a excisão em preferência à ablação em determinados contextos, mas a literatura não demonstra superioridade universal de uma técnica para todas as formas da doença.

    DIRETRIZ INTERNACIONAL

    ESHRE Guideline: Endometriosis

    Diretriz da European Society of Human Reproduction and Embryology. Quando a cirurgia é realizada, a ESHRE estabelece que a excisão pode ser considerada em vez da ablação para redução da dor associada à endometriose. A própria diretriz ressalta as limitações das evidências disponíveis e discute diferenças entre doença superficial e profunda.

    Consultar diretriz ESHRE

    REVISÃO SISTEMÁTICA E META-ANÁLISE

    Excision versus Ablation for Minimal to Mild Endometriosis

    Revisão sistemática e meta-análise de Burks e colaboradores, publicada no Journal of Minimally Invasive Gynecology em 2021. Na endometriose mínima a leve, a análise não demonstrou diferença significativa entre excisão e ablação na melhora da dismenorreia, dispareunia e disquezia. O estudo reforça que os resultados não devem ser generalizados para todas as formas de endometriose.

    Consultar estudo no PubMed

    RECOMENDAÇÕES CIRÚRGICAS INTERNACIONAIS

    ESGE · ESHRE · WES — Cirurgia da Endometriose Profunda

    Recomendações elaboradas conjuntamente pela European Society for Gynaecological Endoscopy, European Society of Human Reproduction and Embryology e World Endometriosis Society sobre os aspectos técnicos da cirurgia da endometriose profunda. O documento aborda planejamento pré-operatório, anatomia cirúrgica e diferentes estratégias conforme a localização e extensão da doença, incluindo intestino, trato urinário e outras estruturas pélvicas.

    Consultar recomendações cirúrgicas

    DIRETRIZ CLÍNICA INTERNACIONAL

    NICE — Endometriosis: Diagnosis and Management

    Diretriz do National Institute for Health and Care Excellence sobre diagnóstico e tratamento da endometriose. Recomenda que a cirurgia seja realizada por via laparoscópica quando indicada e orienta considerar excisão em vez de ablação no tratamento de endometriomas, levando em conta fertilidade e reserva ovariana.

    Consultar diretriz NICE

    REFERÊNCIA INTERNACIONAL EM ENDOMETRIOSE

    World Endometriosis Society — Surgical Recommendations

    A World Endometriosis Society reúne as recomendações cirúrgicas desenvolvidas em colaboração com ESGE e ESHRE. Os documentos abordam tanto o tratamento dos endometriomas — incluindo cistectomia e técnicas ablativas — quanto os aspectos técnicos da cirurgia da endometriose profunda.

    Consultar World Endometriosis Society

    A evidência disponível deve ser interpretada de acordo com o tipo, profundidade e localização da endometriose. Os resultados de estudos sobre doença superficial não devem ser automaticamente extrapolados para endometriomas ou endometriose profunda.