Infertilidade e Endometriose: Evidências e Abordagens
Prevalência e desafios da endometriose
A endometriose é uma condição ginecológica de alta complexidade, cuja prevalência exata ainda é desconhecida. Estima-se que afete entre 2% a 10% das mulheres em idade reprodutiva, podendo alcançar até 50% das mulheres com infertilidade (Eskenazi & Warner, 1997; Meuleman et al., 2009).
Embora muitas mulheres sejam assintomáticas, os principais marcadores clínicos da endometriose são a dor pélvica e a infertilidade. Esses sintomas impactam não apenas a mulher diagnosticada, mas também seus parceiros e familiares. A condição interfere diretamente na qualidade de vida, afetando a funcionalidade física, as atividades diárias, o trabalho, os estudos, a vida sexual, os relacionamentos e a saúde emocional (Culley et al., 2013).
Infertilidade associada à endometriose
Mulheres com endometriose podem enfrentar dor, infertilidade ou ambos (Tomassetti & D'Hooghe, 2018). Nesta seção, abordamos exclusivamente as evidências relacionadas à infertilidade.
Os desfechos clínicos avaliados em estudos incluem taxa de nascidos vivos, gravidez clínica, abortamentos, gravidez ectópica, efeitos adversos e teratogenicidade. Embora o nascimento vivo seja o desfecho mais relevante, a maioria dos estudos se concentra em taxas de gravidez clínica, que não necessariamente se traduzem em nascidos vivos.
Os tratamentos disponíveis dividem-se entre abordagens clínicas, cirúrgicas e não farmacológicas, com foco inicial na gravidez espontânea. A reprodução assistida e a preservação da fertilidade são discutidas em estágios posteriores do cuidado.
Terapias medicamentosas para infertilidade
Supressão ovariana
A eficácia das terapias hormonais na infertilidade por endometriose foi investigada em uma revisão sistemática Cochrane (Hughes et al., 2007). O estudo analisou tratamentos que causam supressão ovariana (GnRH, danazol, progestagênios), comparando-os a placebo ou ausência de tratamento.
Entre os 12 estudos analisados, não foi observado benefício significativo na taxa de gravidez em mulheres tratadas com supressão ovariana. A razão de chances geral foi 0,97 (IC95%: 0,68–1,37). Mesmo em subgrupos com infertilidade confirmada, o resultado foi semelhante.
Conclusão: a supressão ovariana não deve ser utilizada como único tratamento para infertilidade associada à endometriose.
Terapia hormonal adjuvante à cirurgia
A revisão Cochrane de Chen et al. (2020) avaliou 25 estudos sobre o papel da supressão hormonal no período pré e pós-operatório. A terapia antes da cirurgia não demonstrou benefício significativo (RR 1,18; IC95%: 0,97–1,45). Já a supressão hormonal após a cirurgia mostrou possível melhora na taxa de gravidez (RR 1,19; IC95%: 1,02–1,38), mas os autores alertam sobre as limitações e heterogeneidade dos dados.
Não indicar supressão hormonal após cirurgia com o objetivo exclusivo de aumentar a fertilidade. Pode ser considerada para controle da dor ou em pacientes que não planejam engravidar imediatamente.
Outros tratamentos medicamentosos
Foram avaliados também anti-inflamatórios como a pentoxifilina, sem benefício comprovado em fertilidade. Outro estudo testou o letrozol (inibidor de aromatase) após cirurgia e também não encontrou aumento nas taxas de gravidez (Alborzi et al., 2011).
Esses achados reforçam a importância de personalizar o tratamento da infertilidade na endometriose com base em evidência científica sólida, combinando estratégias médicas e cirúrgicas conforme o perfil clínico da paciente.
Conclusão
O atendimento individualizado irá nortear as condutas para tratamento de infertilidade associado a endometriose.
A associação entre infertilidade e endometriose ainda é um dos pontos mais desafiadores para pacientes e ginecologistas que realizam o manejo da endometriose, havendo ainda uma grande quantidade de possibilidades a depender da perspectiva clínica de cada paciente. Sendo assim as condutas sempre devem ser individualizadas. Importante estar sempre acompanhada de um médico que tenha experiência com a endometriose.
Não prescrever supressão ovariana com o objetivo exclusivo de melhorar a fertilidade em mulheres com endometriose.
Referências científicas
Para embasar as informações apresentadas neste artigo, recomendamos a leitura das diretrizes publicadas por instituições de referência nacional e internacional:



