A adenomiose é uma condição ginecológica benigna caracterizada pela presença de glândulas e estroma semelhantes ao endométrio dentro do músculo do útero, chamado miométrio. Ela pode causar cólicas menstruais intensas, sangramento aumentado, dor pélvica e aumento do volume uterino, embora algumas mulheres não apresentem sintomas.
Durante muitos anos, o diagnóstico definitivo da adenomiose esteve fortemente associado ao estudo do útero após uma histerectomia. Com a evolução do ultrassom transvaginal e da ressonância magnética, atualmente é possível reconhecer características da doença por métodos de imagem e planejar o tratamento sem que a retirada do útero seja necessária para estabelecer uma suspeita diagnóstica clínica consistente.
O tratamento deve ser individualizado. A melhor estratégia depende principalmente dos sintomas, da intensidade do sangramento e da dor, da idade, do desejo de engravidar, das características da adenomiose e da presença de outras condições, como endometriose e miomas uterinos.
O que é adenomiose?
O útero é formado por diferentes camadas. O endométrio reveste sua cavidade interna e passa por modificações ao longo do ciclo menstrual. Ao redor dele encontra-se o miométrio, formado predominantemente por músculo.
Na adenomiose, glândulas e estroma semelhantes aos encontrados no endométrio estão presentes dentro desse miométrio. Essa alteração pode estar associada a modificações estruturais e funcionais da parede uterina e contribuir para sintomas como dor e sangramento menstrual aumentado.
O útero pode apresentar aumento de volume e alterações em sua arquitetura, mas a aparência da doença é variável. Algumas pacientes apresentam alterações extensas, enquanto outras possuem áreas mais localizadas.
Adenomiose focal e difusa: a doença não é igual em todas as pacientes
Um aspecto importante para compreender a adenomiose é perceber que ela não representa uma alteração uterina uniforme. A extensão e a distribuição das lesões podem variar consideravelmente.
Adenomiose difusa
As alterações encontram-se distribuídas de maneira mais ampla pelo miométrio, podendo modificar a espessura e a arquitetura de uma porção maior da parede uterina.
Adenomiose focal
As alterações predominam em uma região mais delimitada do útero. Algumas apresentações focais podem formar lesões conhecidas como adenomiomas.
Essa heterogeneidade ajuda a explicar por que duas mulheres com o mesmo diagnóstico podem apresentar sintomas, exames de imagem e necessidades terapêuticas muito diferentes.
Quais são as causas da adenomiose?
A origem da adenomiose ainda não está completamente esclarecida. Diferentes mecanismos biológicos têm sido estudados, incluindo alterações na interface entre endométrio e miométrio, processos inflamatórios, influência hormonal e mecanismos relacionados à formação e reparo dos tecidos uterinos.
Portanto, é mais adequado falar em mecanismos e fatores associados do que atribuir a doença a uma única causa.
Entre características observadas com maior frequência em estudos epidemiológicos estão:
- Idade reprodutiva mais avançada em muitas das populações estudadas.
- Histórico de gestações anteriores.
- Histórico de determinados procedimentos uterinos.
- Influência de mecanismos hormonais e inflamatórios.
- Associação com outras doenças ginecológicas, principalmente endometriose e miomas.
A melhora dos métodos de imagem também tem permitido diagnosticar adenomiose em mulheres mais jovens, inclusive durante investigação de dor pélvica ou infertilidade.
Quais são os sintomas da adenomiose?
Nem toda mulher com adenomiose apresenta sintomas. Quando eles existem, a intensidade é variável e não necessariamente corresponde de forma simples à extensão observada nos exames.
Os sintomas mais frequentemente associados incluem:
- Sangramento menstrual aumentado ou prolongado.
- Cólicas menstruais intensas ou progressivamente piores.
- Dor pélvica crônica.
- Dor durante ou após relações sexuais em algumas pacientes.
- Sensação de peso, pressão ou aumento de volume na região pélvica.
- Anemia ou deficiência de ferro secundária a perdas menstruais importantes.
Quando o sangramento é intenso, a investigação não deve se limitar à adenomiose. Miomas, pólipos, alterações endometriais e outras causas de sangramento uterino anormal podem coexistir ou produzir sintomas semelhantes.
Adenomiose, endometriose e mioma são a mesma coisa?
Não. Embora possam causar sintomas semelhantes e coexistir na mesma paciente, são condições diferentes.
Adenomiose
Caracteriza-se pela presença de glândulas e estroma semelhantes ao endométrio dentro do miométrio.
Endometriose
É caracterizada por tecido semelhante ao endométrio localizado fora do útero, podendo envolver ovários, peritônio, ligamentos e outros órgãos da pelve ou, mais raramente, outras regiões.
Mioma uterino
É um tumor benigno formado principalmente por células musculares lisas e tecido conjuntivo do útero, geralmente formando nódulos mais delimitados.
Essa distinção é importante porque o tratamento ideal para uma condição não é necessariamente o mesmo para outra. Além disso, a coexistência entre elas pode modificar a interpretação dos sintomas e o planejamento terapêutico.
Adenomiose pode afetar a fertilidade?
A relação entre adenomiose e reprodução é uma área de investigação científica ativa. Estudos associam a doença a alterações que podem interferir na fertilidade e em determinados desfechos gestacionais, embora o impacto seja variável entre as pacientes.
Entre os mecanismos estudados estão alterações na contratilidade uterina, inflamação, modificações na zona juncional e possíveis alterações do ambiente necessário para implantação embrionária.
A situação se torna ainda mais complexa porque a adenomiose pode coexistir com endometriose, miomas e outros fatores de infertilidade. Por isso, encontrar adenomiose em um exame não significa automaticamente que ela seja a única causa de dificuldade para engravidar.
Como é feito o diagnóstico da adenomiose?
O diagnóstico moderno começa pela combinação entre sintomas, exame ginecológico quando indicado e métodos de imagem. Atualmente, ultrassom transvaginal e ressonância magnética são os principais exames utilizados para avaliação da adenomiose.
Ultrassom transvaginal
O ultrassom transvaginal realizado com técnica adequada pode identificar diferentes características sugestivas de adenomiose no miométrio e na zona juncional. A interpretação depende do conjunto dos achados, e não de um único sinal isolado.
Por ser amplamente disponível e permitir avaliação detalhada da pelve, o ultrassom costuma ocupar papel central na investigação inicial. A experiência do examinador e a qualidade técnica do estudo são relevantes.
Ressonância magnética
A ressonância magnética também é um método importante e pode fornecer excelente caracterização da anatomia uterina. Pode ser especialmente útil em situações selecionadas, quando existem dúvidas diagnósticas, alterações uterinas associadas ou necessidade de melhor mapeamento anatômico.
Não é correto considerar que toda paciente com suspeita de adenomiose precise obrigatoriamente realizar ressonância magnética. Estudos comparativos mostram que ultrassom transvaginal e ressonância podem apresentar desempenho diagnóstico semelhante quando adequadamente realizados.
Quais são os tratamentos para adenomiose?
Não existe um único tratamento ideal para todas as mulheres. A estratégia deve partir de uma pergunta fundamental: qual é o principal problema que precisa ser tratado?
Para algumas pacientes, o principal objetivo é reduzir o sangramento. Para outras, controlar a dor. Em mulheres que desejam engravidar, preservar o potencial reprodutivo passa a ter papel central.
Tratamento dos sintomas
Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados em situações selecionadas para controle da dor. Medicamentos como ácido tranexâmico também podem fazer parte de estratégias para sangramento menstrual aumentado quando clinicamente apropriados.
Tratamento hormonal
Diferentes estratégias hormonais podem ser utilizadas para reduzir sangramento e dor. Entre as opções descritas em diretrizes estão contraceptivos hormonais combinados, progestagênios, sistema intrauterino liberador de levonorgestrel e, em situações específicas, medicamentos que atuam sobre o eixo do GnRH.
A escolha depende de contraindicações, efeitos adversos, sintomas, necessidade contraceptiva, desejo reprodutivo e características individuais.
Tratamentos intervencionistas
Existem também procedimentos preservadores do útero utilizados em pacientes selecionadas, incluindo técnicas intervencionistas. A indicação depende da apresentação da doença, disponibilidade, objetivos terapêuticos e qualidade da evidência para cada situação.
Quando a cirurgia pode ser considerada na adenomiose?
A cirurgia pode ser discutida quando os sintomas permanecem importantes apesar de tratamentos conservadores, quando existe uma alteração anatômica relevante ou quando as características clínicas justificam uma abordagem cirúrgica.
O tipo de operação depende principalmente da extensão da doença e do desejo de preservar o útero.
Cirurgias preservadoras do útero
Em casos cuidadosamente selecionados de adenomiose focal ou outras apresentações específicas, procedimentos destinados a remover ou reduzir o tecido comprometido preservando o útero podem ser considerados.
Essas cirurgias são tecnicamente diferentes da retirada de um mioma bem delimitado. A adenomiose pode infiltrar o miométrio sem apresentar um plano de separação tão definido, tornando a reconstrução uterina um aspecto relevante do procedimento.
Quando existe desejo reprodutivo, a indicação exige discussão especialmente cuidadosa dos potenciais benefícios, limitações e riscos obstétricos futuros.
Histerectomia
A histerectomia, que corresponde à retirada do útero, é o tratamento cirúrgico definitivo para a adenomiose uterina. Ela pode ser considerada em pacientes com sintomas importantes que não desejam futuras gestações e para as quais outras estratégias não foram eficazes, não são adequadas ou não são desejadas.
Quando a histerectomia é indicada, diferentes vias cirúrgicas podem ser consideradas. Abordagens minimamente invasivas, como videolaparoscopia e cirurgia robótica, podem ser utilizadas em casos apropriados, dependendo da anatomia, do tamanho uterino, de cirurgias anteriores, de doenças associadas e da complexidade esperada.
Como deve ser o acompanhamento da adenomiose?
O acompanhamento depende da apresentação clínica e do tratamento escolhido. Mais importante do que simplesmente repetir exames é avaliar se os objetivos terapêuticos estão sendo alcançados.
Entre os pontos que podem ser acompanhados estão a intensidade da dor, padrão de sangramento, presença de anemia, tolerância ao tratamento, qualidade de vida e planos reprodutivos.
Mudanças importantes no padrão de sintomas merecem reavaliação. Nem todo sangramento ou dor em uma mulher com adenomiose deve ser automaticamente atribuído à doença já conhecida.
Dúvidas frequentes sobre adenomiose
Respostas diretas para algumas das principais dúvidas sobre diagnóstico, sintomas, fertilidade e tratamento.
Adenomiose é câncer?
Não. A adenomiose é uma condição ginecológica benigna. Isso não elimina a necessidade de investigar adequadamente sintomas como sangramento uterino anormal, porque outras doenças podem produzir manifestações semelhantes.
Adenomiose é a mesma coisa que endometriose?
Não. Na adenomiose, glândulas e estroma semelhantes ao endométrio estão presentes dentro do músculo uterino. Na endometriose, tecido semelhante ao endométrio está localizado fora do útero. As duas condições podem coexistir.
Adenomiose é igual a mioma?
Não. Miomas são tumores benignos formados principalmente por músculo liso e tecido conjuntivo. A adenomiose apresenta características histológicas e estruturais diferentes, embora ambas possam causar aumento uterino, dor e sangramento.
Adenomiose pode causar sangramento intenso?
Sim. Sangramento menstrual aumentado é uma das manifestações frequentemente associadas à adenomiose. Quando importante, também pode contribuir para deficiência de ferro e anemia.
Adenomiose causa cólica forte?
Pode causar. Dismenorreia, ou cólica menstrual, é um dos sintomas associados à doença. Entretanto, endometriose e outras condições também podem causar dor menstrual intensa e devem ser consideradas durante a avaliação.
Adenomiose pode causar infertilidade?
A adenomiose está associada a alterações reprodutivas em alguns estudos, mas fertilidade é multifatorial. Idade, reserva ovariana, endometriose associada, fatores tubários, masculinos e outras condições também precisam ser avaliados.
Qual é o melhor exame para diagnosticar adenomiose?
Ultrassom transvaginal e ressonância magnética são os principais métodos de imagem utilizados. Um ultrassom realizado e interpretado adequadamente pode apresentar excelente desempenho. A ressonância é particularmente útil em situações selecionadas e para caracterização anatômica adicional.
Toda mulher com adenomiose precisa fazer ressonância?
Não. A necessidade da ressonância depende da qualidade e dos achados do ultrassom, da apresentação clínica e das informações necessárias para definir a estratégia terapêutica.
Adenomiose sempre precisa de tratamento?
Não. Mulheres sem sintomas relevantes podem não precisar de tratamento específico. A decisão terapêutica deve considerar sintomas, impacto na qualidade de vida e objetivos individuais.
DIU hormonal pode ser utilizado na adenomiose?
O sistema intrauterino liberador de levonorgestrel é uma das opções utilizadas para controle de sangramento e dor em pacientes selecionadas. A indicação depende da avaliação clínica e de eventuais contraindicações.
Adenomiose tem cura?
Existem tratamentos capazes de controlar significativamente os sintomas preservando o útero. A histerectomia é considerada o tratamento cirúrgico definitivo da adenomiose uterina, mas não é necessária nem apropriada para todas as pacientes.
Toda paciente com adenomiose precisa retirar o útero?
Não. Existem diversas opções conservadoras. A histerectomia é considerada principalmente quando os sintomas são importantes, não há desejo de futuras gestações e a decisão é adequada após avaliação das alternativas.
Cirurgia robótica pode ser utilizada no tratamento?
Em situações nas quais existe indicação cirúrgica, a cirurgia robótica pode ser uma das vias minimamente invasivas disponíveis para determinados procedimentos. A indicação depende do tipo de cirurgia, anatomia e complexidade do caso.
Referências utilizadas para este conteúdo
A compreensão da adenomiose continua evoluindo. As referências abaixo incluem diretriz clínica, revisão científica e evidências sobre diagnóstico por imagem.
Guideline No. 437: Diagnosis and Management of Adenomyosis
Diretriz baseada em evidências sobre diagnóstico e tratamento da adenomiose, incluindo opções medicamentosas, intervencionistas e cirúrgicas.
Consultar no PubMedAdenomyosis: An Update Concerning Diagnosis, Treatment, and Fertility
Revisão de 2024 abordando diagnóstico, tratamento e aspectos reprodutivos relacionados à adenomiose.
Consultar no PubMedUltrassom transvaginal versus ressonância magnética
Meta-análise comparando diretamente o desempenho diagnóstico do ultrassom transvaginal e da ressonância magnética para adenomiose.
Consultar no PubMedInternational Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology
Material da ISUOG sobre sintomas, diagnóstico por imagem e princípios gerais de tratamento da adenomiose.
Consultar ISUOGA escolha do tratamento depende da apresentação clínica, desejo reprodutivo, características da doença e preferências da paciente. Evidências sobre algumas estratégias preservadoras da fertilidade ainda estão em evolução.
Conclusão
A adenomiose é uma doença uterina benigna e heterogênea. Algumas mulheres permanecem assintomáticas, enquanto outras apresentam sangramento menstrual aumentado, cólicas intensas, dor pélvica e impacto significativo na qualidade de vida.
O diagnóstico evoluiu consideravelmente com o aprimoramento do ultrassom transvaginal e da ressonância magnética. Da mesma forma, o tratamento atualmente pode incluir desde acompanhamento e terapias medicamentosas até procedimentos intervencionistas e cirurgia.
Mais importante do que escolher uma técnica isoladamente é compreender qual manifestação da doença precisa ser tratada e quais são os objetivos daquela paciente. Sintomas, desejo reprodutivo, doenças associadas e anatomia uterina precisam fazer parte da mesma decisão terapêutica.




